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O Sacerdócio de Cristo como modelo do Carisma Oblaciano

Na Quinta-Feira Santa celebramos a missa da instituição dos Sacramentos da Eucaristia e da Ordem. A dinâmica desta celebração, enquanto Oblatos de Cristo Sacerdote, nos abre uma importante reflexão, visto que o Carisma Oblaciano é servir a Cristo Sacerdote, na pessoa dos bispos e padres, tendo a Eucaristia como centro de nossa espiritualidade.

A vida de Jesus Cristo é toda sacerdotal e nos remete tanto aos seus ensinamentos como também ao seu mistério de salvação, tendo como ponto chave sua Paixão, Morte e Ressurreição. Mistério este que se destaca pela prática do amor gratuito que se faz presente nos relatos dos evangelhos: “Jesus fala repetidamente, em suas parábolas, da compaixão, do perdão, da acolhida aos perdidos, da ajuda aos necessitados”. Sua preocupação com os mais necessitados constitui a fonte, da sua ação e natureza da sua consagração, conforme as Sagradas Escrituras: “O Espirito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para Evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos presos, e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor.” (Lc 4,18-19)

A partir daí, podemos compreender que o sacerdócio de Cristo é modelo de serviço, doação, entrega total, para todos os demais sacerdotes, pois ele é o único Sacerdote que constitui os outros sacerdotes. Dessa maneira, na celebração da Quinta-Feira Santa, quando Jesus lava os pés de seus Apóstolos, institui um modelo sacerdotal: “Depois põe água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido.” (Lc 13,5)

Na tradição bíblica, lavar os pés é bem próprio das pessoas mais simples. “O lava-pés era serviço que se prestava para demonstrar acolhida e hospitalidade ou deferência. De ordinário, era feito por escravo não judeu, ou melhor, a esposa do marido, os filhos e filhas do pai (cf. 1Sm 25,41)”.

Com isso, podemos perceber que o ministério sacerdotal é antes a capacidade de colocar-se a serviço do outro. Além disso, é um gesto de amor e de cuidado que está também na radicalidade de ir ao encontro dos irmãos e irmãs.

O sacerdócio proposto por Jesus Cristo, a partir do lava-pés, nos apresenta também uma dinâmica de continuidade e ruptura ao mesmo tempo. A continuidade é que Jesus assume papel de mediador do Pai, assim como era na tradição do Antigo Testamento. Antes de se colocar a serviço tinha consciência do que ainda iria acontecer com sua vida terrena, com sua morte: “Sabendo que o Pai tudo pusera em suas mãos e que ele viera de Deus e a Deus voltava” (Lc 13,3). Assim, os apóstolos reunidos significa a continuidade do sacerdócio, mas agora tendo Cristo como modelo sacerdotal.
Cristo como único e verdadeiro Sacerdote nos apresenta o gesto de lavar os pés uns dos outros. Desta ação, torna-se presente o rompimento com o modelo institucional da antiga aliança. Isso fica evidente pela dificuldade de Pedro perceber a grandiosidade do gesto de Jesus: “Disse-lhe Pedro: Jamais me lavarás os pés! Jesus respondeu-lhe: Se não te lavar, não terás parte comigo.” (Lc 13, 8-9)

A resposta de Jesus a Pedro é contundente: você não irá fazer parte comigo. Dessa maneira, a visão eclesiológica e sacerdotal de Jesus é a capacidade de amar; isto se torna condição necessária para aquele que deseja fazer parte de seu Sacerdócio. Mesmo Pedro, com vários anos próximos de Jesus, se ele não fosse capaz de se deixar envolver pelo mandamento do amor não teria estabelecido uma relação de alteridade para com seus pares, não poderia ter feito parte do mistério da vida de Cristo.


Cf. DV, 13.

José Antonio PAGOLA, Jesus Aproximação Histórica, 2013, p.305.

Cf. CIC, 1545.

MATEOS, J. – BARRETO, J, O evangelho de São João, 1999, p.6.

Cf. CIC, n° 1544.

 

Esse mandamento do amor é o núcleo da vida sacerdotal instituído por Jesus Cristo. Para nós, Oblatos de Cristo Sacerdote, esse tema é o centro de nossa espiritualidade e carisma, pois nos traz uma compreensão da função que exercermos na Igreja de Jesus a partir de seu Sacerdócio.  Dessa maneira, a celebração do lava-pés é também um mandamento ao qual cada Oblato deve obedecer, em outras palavras, o Oblato, a partir da dimensão sacerdotal de Cristo, deve ter a capacidade de sair de si mesmo e ir ao encontro do outro. A partir disso, a vida comunitária e fraterna, tanto interna quanto externa, é uma oportunidade que Cristo nos concede para a vivência da lógica do amor, ensinada a partir de sua entrega incondicional ao Pai.

Por fim, ser Oblato é aceitar aquilo que Cristo fez com Pedro em seu gesto de amor Sacerdotal, que se manifesta no cuidado e no seu chamado vocacional para a vivência da fraternidade comunitária e na partilha das pequenas coisas do dia a dia, tendo presente aquilo que ele nos ensinou através de seu Evangelho: “Se, portanto, eu, o Mestre e Senhor, vos laveis os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros.” (Lc 13, 4).       
 

Referencias Bibliográficas

CATECISMO da Igreja Católica. Petrópolis: Vozes, 1993. 
PAGOLA, José Antônio. Jesus: aproximação histórica. 6ª Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.
MATEOS, J. – BARRETO, J, O evangelho de São João, Paulus, 1999, p.6
JOÃO PAULO II. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Pastores Dabo Vobisde sua Santidade João Paulo II ao Episcopado ao Clero e aos Fiés sobre a formação dos Sacerdotes nas circunstâncias atuais (online), 1998.

Disponível em: < http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_25031992_pastores-dabo-vobis.html.>Acesso em: 11 de Maio de 2021

 

Por:  Ir. Lucas Calbi de Oliveira Costa, OCS.