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“Ide a Jose’! O que ele vos disser, fazei!”

 

IDE A JOSE’! (1)

“Ide a Jose’! O que ele vos disser, fazei!” (2)
Assim dissera, em tom solene,
com decreto de valor perene,
do Egito o poderoso soberano,
um jovem apontando, confiante,
elevado a seu Ministro, nesse instante!

Ele, que pelos irmãos fora vendido,
escravo de um povo prepotente,
injustiçado, em triste prisão metido,
e...com paciência, confiara no Deus Clemente.

Ide a José! E os depósitos do precioso trigo,
abertos foram para o povo faminto;
e todos saciaram- se da farta messe
que, com sabedoria, ali fora acumulada.

Todos, do Egito, nele encontraram abrigo;
pois nele viam um pai, bondoso, amigo,
e, mesmo, de lugares tão distantes,
caravanas vinham  buscar, confiantes,
o pão, dos alimentos, o mais antigo. (3)

Assim, seu nome, que “AUMENTO” significava, (4)
foi tomando grande fama em todo o mundo,
e  aquele reino, sempre mais prosperava,
sob um guia iluminado, de vigor profundo.

Mesmo  seus irmãos, percorreram, esperançosos,
duros caminhos, no deserto, sob o sol ardente,
até divisarem , já bem próximos, os esplendorosos
monumentos  do país  “onipotente”.

Admiráveis os mistérios de Deus!
Este “jovem sonhador” (5) teve dura vida
até chegar à dignidade tão gloriosa,
para trazer ao Egito todos os seus
em busca de uma situação vantajosa,
para, enfim, retornarem à terra querida!

José (6), grande José, esse do Egito (7)!
Porém, de um outro foi só pálida figura!
Surge, séculos depois, a histórica passagem
 daquele que, dos tempos a plenitude,
da graça teve o “aumento” do céu bendito
de régia ascendência (8), suma linhagem,
por Deus preparado, desde a sua juventude!

 

Este, sim, é o Patriarca (9) glorioso,
que encerra o Antigo e abre o Novo Testamento!
Com sua vinda, todo Orbe jubiloso
começa a contemplar, enfim, o momento,
em que o Senhor Infinito fez- se “criatura”,
o Emanuel, “Deus conosco” (10), supremo evento,
no qual José vem tomar parte, suma ventura!

Deus, em Sua imensurável Providência,
quis uní- lo à Maria, a Virgem toda pura,
para protegê- la em sua maternal virgindade
e ser “Pai” de um Deus que, com clemência,
veio até nós, em nossa pobre natura!

Um Anjo, em sonho, revelou- lhe o mistério
da Divina Encarnação que se efetuara
e, do Homem- Deus e de Sua Mãe amada,
o casto “Guardião”(11) , ter toda vida dedicada
a serviço do “Eterno”, que Homem se tornara,
para salvar a humanidade em trevas desolada!
Assim, - ó maravilha!- a Santa Igreja ali  iniciara!

Sempre o Anjo do Senhor, em sonhos fala
de sua missão, das lutas a enfrentar,
ele, humilde, atento e dócil a escutar
a Palavra que no fundo d’ alma cala!
José segue as determinações dos céus,
com prontidão, caminhando à luz de Deus,
como Abraão (12), confia na voz do seu Senhor
que sempre guia a sua vida com amor!

De Nazaré a Belém, onde ao mundo vem
o Salvador  de toda a humanidade!
Em seguida, o longo e triste exílio,
segue confiante no providencial auxílio...
Anos depois, voltando à pátria querida,
desenvolve o seu ofício, em dura lida,
sempre com o coração cheio d’ alegria,
em seu constante amor por Jesus e Maria!

Ah! Casa de Nazaré, oásis de paz!
A mais Santa Família ali nos traz!
Na oficina do humilde carpinteiro
o Senhor  ali estava o tempo inteiro
e  dele, José a revelação ouvia
do infinito amor do Pai que o assistia!
Sim, ele do Pai era o embaixador,
verdadeiro pai daquele que é todo Amor
e que se doou pela humanidade,
a fim de salvá- la da triste realidade
do pecado original, perene inimizade!

Entre Jesus e o Seu amado pai,
houve contínua troca de lições:
José ensinava- Lhe do ofício os segredos
e o Filho  revelava- lhe o Amor do Eterno Pai...
Assim passavam longas horas, os corações,
em sublimes e inefáveis d’ alma elevações.
José aprendeu do Menino que crescia,
a olhar o Pai como Fonte que Amor irradia
e, impulsionado pelo Espírito de Jesus,
José amou esse Pai que tanto nos ama,
   a Ele ofereceu de sua vida a dura cruz,
unindo-se ao Filho, na salvação humana
com toda a dor que desta união promana!

Ao pensar no próximo futuro de Jesus,
a dor foi minando- lhe o coração...
e, assim enfraquecido, dia após dia,
o “Justo” (13) José ao Pai do céu d’ amor ardia,
entrevendo a glória da feliz Mansão,
desejando mergulhado ser na eterna luz!

A Esposa e o Filho bem próximos lhe estavam
quando ele ao “tempo” os olhos encerrou,
abrindo- os para a visão infinda
daquele Pai, a quem na terra tanto amou!
Sim, ele “de amor morreu” (14), - que morte linda!-
Morte santa de José! Morte bendita!
Que da morte nada tem, só leva à vida:
Jesus assinala a sua fronte com a cruz...
Assim ele parte para a definitiva luz
da Casa do seu Filho, suprema dita,
a cidade do Amor, de paz inaudita,
encerrando desta terra toda lida

Desde que José assunto foi à glória,
o Pai Clemente fez ouvir a Sua voz,
proclamando sua grandeza e vitória,
como outrora, no Egito, do Nilo a foz,
escutou uma ordem peremptória:
“Ide a José! O que ele disser, fazei-o!”
Agora não é para o José das buscas terrenas,
mas para o José das honras supremas,
do povo peregrino na história!
Compreendeu- o “de Cristo o Santo Vigário”,
“da Igreja Patrono” (15), com fé proclamando:
“Ide a José, fiéis exultantes,
elevai- lhe as preces, em amor, confiantes!”

 

“O que ele disser, fazei- o!”
Sim, ó Pai, faremos o que ele nos diz!
Porém, em seu silêncio, em sua humildade,
diz- nos, mais com atos, que a Vossa vontade,
deve ser, na obediência, realizada,
para que cada um de nós seja feliz,
na glória que ser-nos-á reservada!

 

 

                     NOTAS:

(1)-               (Yosef)- José.
(2)- Cf. Gn 41, 55.
(3)- Cf. Gn 3,19.
(4)- Cf. Gn 30 24 (que Deus me dê mais um filho= “aumento”).
(5)-  Gn 37, 19.
(6) e (7)-  Cf. Gn 39-49 : José do Egito, vendido por seus irmãos é figura de Cristo e, feito Ministro da Casa do Faraó, é figura de São José. Por coincidência, temos vários elementos comuns entre o José do Egito e São José: ambos tiveram os pais com o nome de Jacó; ambos tiveram revelações do céu por meio de sonhos; ambos estiveram no Egito...
(8)- Cf. Mt 1, 16 e Mt 1, 20.
(9)- no séc.XVIII BENTO XIV deu-lhe o título de “Patriarca” .
(10)- Cf. Is 7, 14.
(11)- S. JOÃO PAULO II, Exort. Apost. “Redemptoris Custos”,AAS 82 (1990) e PAPA FRANCISCO, Carta Apost. “Patris Corde”, Oração Final.
(12)- Cf. Gn 12 e ss.
(13)- “Justo” Cf. Mt 1, 19.
(14)- Santa Teresinha do Menino Jesus escreveu uma belíssima poesia intitulada “Mourir d’ amour” (“Morrer de amor”).
(15)- O BEATO PIO IX, em 1870, promulgou, através da S. Congregação dos Ritos, um decreto declarando São José Patrono da Igreja Universal ( Cf. SAGRADA CONGREGAÇÃO DOS RITOS,Decreto “Quemadmodum Deus”, 8\12\1870).