<Voltar

SÃO JOSÉ: O PRIMEIRO OBLATO DE CRISTO SACERDOTE

Certa vez, ao ouvir que São José é “o primeiro Oblato”, um vocacionado perguntou: – essa Congregação é tão antiga assim? Após risos, ouviu a explicação: nós o chamamos Oblato porque ele foi o primeiro homem a entregar totalmente sua vida para servir ao Filho de Deus e esta é a vocação do Oblato de Cristo Sacerdote.

Na verdade, nossa Congregação sequer alcança um século de existência e somos tão pequenos que parece arrogante chamar assim o grandioso santo. Quem me estimula a usar este título é Sua Santidade, o papa Francisco, ao afirmar que “todos podem encontrar em São José um intercessor, um amparo, um guia nos momentos de dificuldade, pois todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano, tem um protagonismo sem paralelo na história da Salvação”.

Essas palavras podem ser encontradas na introdução da Patris corde (com coração de pai), a Carta Apostólica na qual o atual pontífice quis partilhar algumas reflexões pessoais sobre o extraordinário santo e proclamar o Ano de São José, com início em 08 de dezembro de 2020 e término no mesmo dia e mês de 2021, marcando os 150 anos da declaração do Padroeiro Universal da Igreja, feita pelo Beato Pio IX em 1870.

Este texto é uma resenha da Patris corde. Para cada um dos sete títulos escolhidos pelo Santo Padre dedicamos dois parágrafos: o primeiro é um resumo do que se encontra na Carta Apostólica, o segundo é uma aproximação à nossa vida oblaciana. Boa leitura!

1. Um amado pai.
São José é um pai muito amado pelo povo cristão. Numerosas igrejas são dedicadas a ele; congregações religiosas, irmandades e tantos grupos adotam seu nome e alimentam-se de sua espiritualidade; santos e santas foram seus devotos apaixonados; nos manuais de oração sempre há alguma prece a São José; nas quartas-feiras ele é lembrado e nos meses de março é celebrado. Isso tudo porque fez de sua vida um serviço, uma “oblação sobre-humana de si mesmo, do seu coração e de todas as capacidades no amor colocado a serviço do Messias nascido em sua casa”.

Parafraseando Francisco, São José é um pai muito amado pelos Oblatos. Em nossa Casa Geral, o Mosteiro da Sagrada Face, sua imagem ocupa o centro do claustro com o lírio em punho; nossas casas de formação levam seu nome, tanto o Noviciado em Monnerat, quanto o Aspirantado e Postulantado em Barretos; o primeiro Oblato de Cristo Sacerdote, o Pe. José Mariano, carrega seu nome; nosso devocionário desfila preces em seu louvor e, diariamente, após o santo terço o invocamos dizendo A vós, São José.... Eis alguns sinais para amar esse pai.

2. Pai na ternura.
Muitas vezes pensamos que Deus conta apenas com a nossa parte boa e vitoriosa, quando, na verdade, a maior parte dos seus desígnios se cumpre através de nossa fraqueza e apesar dela. Aqui há uma diferença: o Maligno nos faz olhar para a nossa fragilidade com um juízo negativo, ao passo que o Espírito traz nossas fraquezas à luz com ternura. O Maligno pode dizer-nos a verdade, mas, se o faz, é para nos condenar. Entretanto, nós sabemos que a Verdade vinda de Deus não nos condena, mas nos acolhe, abraça, ampara e perdoa, como o Pai misericordioso da parábola (Lc 15,11-32). Só a ternura nos salvará da obra do Acusador (Ap 12,10). A vontade de Deus passa também por meio da angústia de José.

Quantas fragilidades, quantos pecados marcam a vida dos Oblatos de Cristo Sacerdote. Alguns desses notórios e conhecidos, outros ocultos. Apesar disso, quantas graças! Que bela história o Pai misericordioso nos fez construir; quantos elogios ouvimos nas comunidades paroquiais por onde passamos e dos bispos e padres a quem auxiliamos. Quanta ternura à nossa volta!


3. Pai na obediência.
José foi chamado por Deus para servir diretamente a Pessoa e a missão de Jesus e, em todas as circunstâncias de sua vida, soube dizer “sim”. Obedeceu às ordens divinas recebidas em sonho e assim salvou e protegeu o menino e sua mãe; foi obediente às leis dos governantes e às prescrições religiosas. Assim, na escola de José, Jesus aprendeu a fazer a vontade do Pai. O Oblato de Cristo Sacerdote é também chamado por Deus para servir diretamente a Pessoa e a missão de Jesus, servindo os sacerdotes e bispos, e assim, como José, a cooperar no mistério da Salvação. Quem se oferece para servir precisa aprender a obediência e estar atento ao que o Senhor quer. Pode ser um sonho, uma conversa, uma vontade de um bispo ou padre, um decreto civil como os que temos em tempo de pandemia, uma situação inesperada. Gosto de pensar que o decreto de César Augusto ordenando o recenseamento cada um em sua cidade, pode ter sido recebido por José como esses decretos que limitam ou fecham nossas igrejas. Oportunidades para ser obediente como São José!


4. Pai no acolhimento.
Acontecem em nossa vida coisas que não planejamos e, algumas vezes, nem entendemos. Nossa primeira reação costuma ser de revolta ou de decepção. No entanto, se não acolhemos essas situações não conseguimos dar um passo a mais à frente e ficamos reféns de nossas expectativas e consequentes desilusões. São José é exemplo de acolhimento, por exemplo, quando aceita Maria, grávida, como sua esposa. Só Deus pode nos dar a força para acolher a vida como ela é, aceitando suas contradições, imprevistos e desilusões. Da mesma forma, o acolhimento de São José nos ajuda a receber os outros, tal como são, dando preferência aos mais frágeis.

As Constituições da Congregação, ao tratar da formação comunitária ensina-nos: “que tomemos o homem como ele é e não apenas como gostaríamos que ele fosse” (cf. art. 35, §1d). Isso é acolhimento, no sentido apresentado por sua Santidade. Acolhimento é atitude que precisamos quando somos enviados a uma nova missão, quando somos transferidos de comunidade, quando os projetos em andamento são interrompidos por outros motivos. E quantas coisas novas aconteceram em nossas vidas após termos acolhido, talvez a contragosto, uma situação, à primeira vista desfavorável!


5. Pai com coragem criativa.

Não basta acolher situações indesejáveis de nossa própria história, é preciso acrescentar a elas uma característica importante: a coragem criativa. Essa coragem faz aparecer em nós recursos que nem pensávamos ter na busca de resolver os problemas. São José não só acolheu Maria grávida, viajou com ela para Belém, sem hospedagem arranjou um lugar; ameaçados, fugiu para outro país, onde com certeza precisou procurar moradia e trabalho. Precisamos usar a mesma coragem criativa do carpinteiro de Nazaré, que soube transformar o problema em oportunidade, colocando sua confiança na Providência. O papa Francisco diz que sempre devemos nos perguntar se estamos protegendo Jesus e Maria com todas as nossas forças, que devemos aprender com São José o mesmo cuidado e responsabilidade: amar o Menino e sua Mãe, amar os Sacramentos e a caridade, amar a Igreja e os pobres. Cada uma dessas realidades é sempre o Menino e sua Mãe.

Lembremos da coragem criativa do padre Januário Baleeiro. As primeiras páginas de nossa história foram escritas devido a uma coragem criativa: os desafios de Lagoa Santa, São José das Três Ilhas, Monnerat e outros tantos, superados com confiança na Providência e a persistência de nosso Fundador e dos primeiros irmãos Oblatos. Recordemos situações de nossas histórias pessoais que exigiram de nós descobrir forças que nem sabíamos que tínhamos e, com Sua Santidade nos perguntemos: “estamos protegendo Jesus e Maria com todas as nossas forças?”, protegemos nossa Família Religiosa com coragem criativa? “Em certas situações, parece que Deus não nos ajuda, isso não significa que nos tenha abandonado, mas que confia em nós, com o que podemos projetar, inventar, encontrar”.


6. Pai trabalhador.
São José era um carpinteiro, diz a Escritura. Esse aspecto de trabalhador é uma das virtudes destacadas no grande santo, especialmente a partir da carta encíclica Rerum novarum de Leão XIII, e cresceu no decorrer do século XX, até que em 1956, o papa Pio XII instituiu a festa de São José Operário no Dia do Trabalho, 1º de maio. O papa Francisco chama a atenção para o fato de que “o trabalho parece ter voltado a constituir uma urgente questão social e o desemprego atinge níveis impressionantes, mesmo em países onde se experimentou durantes várias décadas um certo ‘bem estar’”. Lembra que o trabalho é uma oportunidade de realização não só para o trabalhador, mas sobretudo para a família, que fica exposta a dificuldades, tensões e mesmo sob risco de dissolução, quando seus membros não encontram meios para um sustento digno. Ele nos chama a construir uma nova “normalidade” pós-pandemia onde ninguém seja excluído: nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho. A exemplo de São José, o Oblato de Cristo Sacerdote, responde positivamente ao chamado divino para assumir uma missão e, em decorrência disso, precisará ser capaz de transformar as coisas à sua volta, desde o cumprimento das tarefas mais simples do dia a dia até grandes responsabilidades, sempre com humildade, lembrando que “em qualquer função que exerçam, sintam-se todos sujeitos à lei do trabalho”, assim rezavam as antigas Constituições (cf. art. 34, 1984).


7. Pai na sombra.
O último título que o papa Francisco atribui a São José na Patris corde não é comum, ele toma do romance de um escritor polonês intitulado A Sombra do Pai, no qual apresenta São José como a sombra do Pai celeste na terra que nunca se afasta de Jesus. No entanto, ser pai não significa ser dono, prender ou subjugar o filho, mas introduzi-lo na experiência da vida, tornando-o capaz de ser livre. Entra aqui uma rica reflexão sobre a castidade, que é a síntese de uma atitude que exprime o contrário da posse: “um amor só é verdadeiro quando é casto. O amor que quer possuir, acaba por tornar-se perigoso: prende, sufoca, torna infeliz.” Assim, um pai sente que viveu plenamente a paternidade quando se tornou “inútil”, quando vê que o filho está maduro e caminha sozinho na vida, quando se coloca na situação de José, que sempre soube que aquele Menino não era seu, apenas estava sob seus cuidados. Entre nós, os que recebem o sacramento da Ordem, são chamados de “padres”, isto é, pais. Mesmo entre os não ordenados há sinais de paternidade por outros motivos como idade, função e em outras comunidades religiosas o Superior é chamado “abade”, o mesmo que “pai”. Por outro lado, exercemos diante do povo que nós é confiado a função de pais. Por isso, a ideia de ser “sombra” do Pai celeste, como São José foi para Jesus, nunca deve se apagar em nós. Nas palavras de Francisco, “todas as vezes que nos encontramos na condição de exercitar a paternidade, devemos lembrar que nunca é exercício de posse, mas ‘sinal’ de uma paternidade mais alta”. Rezar com este título aplicado a São José é dar graças a Deus por ter estendido sobre nós sua ‘sombra’ por meio de tantos pais, desde os que nos trouxeram a este mundo, aos nossos pais na fé e na vocação como Oblatos de Cristo Sacerdote, cumprindo o que dissera o anjo a Maria. “o Espírito te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35).

Concluindo a leitura da Carta Apostólica que nos convida a celebrar o Ano de São José afirmo que ela é a grande bênção paterna que Sua Santidade estende sobre seus filhos espirituais em momento tão doloroso da história. Em meio a uma pandemia que desarticula todas as nossas formas de organização, vem sobre nós a “sombra” do Pai celeste infundindo esperança e chamando-nos a construir uma nova humanidade. Tenhamos ânimo irmãos! É o Senhor que nos diz: “Levantem-se e tomem o Menino e sua Mãe!”


Pe. Samuel José de Carvalho, OCS.