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Beata Pierina e o Rosto de Jesus

História de uma freira que, entre a Argentina, Milão e Roma,viveu a fé como um olhar para o doce Rosto de Jesus

Madre Pierina De Micheli, de nome secular Giuseppina, proclamada beata em 30 de maio de 2010, pertencia à Congregação das Filhas da Imaculada Conceição de Buenos Aires.

Giuseppina De Micheli nasceu em Milão (Itália) em 1890, última de uma família numerosa, que dará à Igreja outras duas religiosas, Teofila e Luigia, e um sacerdote, padre Riccardo. Para contar sua vida, marcada desde a infância por uma especial amizade com Jesus, usaremos uma carta que ela mesma escreveu ao papa Pio XII em 1943, por ocasião de uma visita ao trono de Pedro. Escreve a beata:

“Eu tinha doze anos quando, na Sexta-Feira Santa, esperava em minha paróquia a minha vez de beijar o crucifixo, e ouço uma voz distinta que diz: ‘Ninguém me dá um beijo de amor no rosto, para reparar o beijo de Judas?’ Acreditei, na minha inocência de menina, que todos ouvissem a voz, e fiquei com muita pena, vendo que continuavam a beijar as chagas e que ninguém pensava em beijá-lo no Rosto. Eu darei o beijo de amor, Jesus, tenha paciência. Na minha vez, apliquei-lhe um forte beijo no Rosto, com todo o ardor do meu coração. Eu estava feliz, acreditando que Jesus, agora contente, não sofreria mais aquela pena”. Desde então, o rosto de Jesus foi objeto de devoção profunda de Giuseppina. “A partir daquele dia”o primeiro beijo no crucifixo era em Seu Santo Rosto”.

Quando era adolescente, gostava de ensinar o catecismo às crianças e corria para acompanhar o sacerdote quando este ia administrar a extrema-unção aos moribundos, pois, como ela mesmo explicava quando lhe perguntavam, é bonito acompanhar uma alma rumo ao Paraíso.

Ninguém sabe muito bem quando foi que floresceu nela a vocação à vida consagrada: talvez durante a vestição de uma de suas irmãs, talvez antes. O certo é que desde menina sentiu-se de alguma forma atraída para isso e, ao mesmo tempo, atemorizada. Quando alguém lhe perguntava, respondia evasiva. Numa carta, padre Riccardo, o irmão sacerdote a quem Giuseppina apegou-se muito, depois da morte dos pais, ironizaria essa sua hesitação, escrevendo: “Para você, as freiras devem vir do outro mundo”. Passam alguns meses e o sacerdote conhece religiosas que acabam de chegar a Milão: pertencem à congregação das Filhas da Imaculada Conceição, e sua casa geral fica em Buenos Aires. Não lhe resta senão comunicar à irmã mais nova que as freiras do outro mundo tinham finalmente chegado... Vencendo as últimas hesitações, Giuseppina entra na congregação e se torna irmã Maria Pierina.

Depois de um intenso período de formação, é enviada à Argentina, onde toma os votos perpétuos. No final de 1921, volta à Itália, para a casa que as irmãs abriram em Milão, onde, com o tempo, se torna superiora. Nesse período, a amizade com Jesus, que lhe apareceu outras vezes, se torna mais cara e familiar. Escreve na carta enviada ao Papa: “Seu olhar era tudo para mim. Nós nos olhávamos sempre e fazíamos competições de amor. Eu Lhe dizia: ‘Jesus, hoje eu te olhei mais’; e Ele: ‘Prova-me, se puderes’. Eu O fazia lembrar as muitas vezes que olhava para ele sem nem sentir, mas Ele sempre vencia”.

É nesse clima que acontece um outro episódio importante da vida da beata, assim o conta, na carta a Pio XII:

“Em 31 de maio de 1938, quando rezava na capelinha de meu noviciado, uma Bela Senhora se apresentou a mim: tinha nas mãos um escapulário formado por duas flanelinhas brancas, unidas por um cordão. Uma flanelinha trazia a imagem da Santo Rosto de Jesus, a outra uma hóstia cercada por um feixe de raios. Aproximou-se e me disse: ‘Ouça bem e conte tudo exatamente ao padre. Este escapulário é uma arma de defesa, um escudo de fortaleza, uma promessa de amor e de misericórdia que Jesus quer oferecer ao mundo nestes tempos de sensualidade e de ódio contra Deus e a Igreja. Estendem-se redes diabólicas para arrancar a fé dos corações, o mal se expande, os verdadeiros apóstolos são poucos, é necessário um remédio divino e este remédio é o Santo Rosto de Jesus. Todos aqueles que usarem um escapulário como este e, podendo, fizerem toda terça-feira uma visita ao Santíssimo Sacramento para reparar os ultrajes que recebeu o Santo Rosto durante a Sua Paixão e que recebe todos os dias no sacramento eucarístico, serão fortalecidos na fé, estarão prontos a defendê-la e a superar todas as dificuldades internas e externas, e ainda terão uma morte serena sob o olhar amável do meu Divino Filho’”.

 

A madre torna-se assim solícita promotora da devoção do Santo Rosto de Jesus, a qual logo se difunde ao redor do Instituto. Infelizmente, muito cedo percebe que não é fácil difundir escapulários. Tem assim a ideia de cunhar uma medalha que reproduza em suas faces o que é pedido por Nossa Senhora. Uma ideia que logo obtém o conforto divino: numa outra aparição, a Bela Senhora lhe garantirá que as medalhas serão acompanhadas pelas mesmas promessas já expressas para os escapulários.

Em busca de uma imagem para a medalha, madre Pierina se depara com uma fotografia do Sudário que reproduz o Rosto de Jesus, tirada por Giovanni Bruner. Uma imagem um tanto conhecida em Milão, já que o fotógrafo a dera de presente ao arcebispo da cidade, o bem-aventurado cardeal Ildefonso Schuster, o qual, por sua vez, a entronizou com máxima devoção numa igreja dedicada ao Santo Rosto. Infelizmente, fica difícil a produção das medalhas, por uma série de problemas de ordem econômica e burocrática, que parecem insuperáveis à pobre freira. Procura a ajuda de seu orientador espiritual, o jesuíta padre Rosi, que responde que confie na Providência. Acolhe a sugestão, mas não fica muito confortada.

Nesse meio-tempo, em setembro de 1939, é enviada a Roma com o cargo de superiora regional, para viver na nova casa que a Congregação conseguiu abrir na capital graças, também, a sua incansável supervisão. É ali que encontra o abade Ildebrando Gregori (cujo processo de beatificação está em andamento), da congregação dos monges beneditinos silvestrinos, que se torna seu novo orientador espiritual e seguro conforto para o resto da vida.

E é ali que, finalmente, consegue reproduzir as medalhas que lhe são tão caras. Graças também a um pequeno prodígio. Na carta ao Papa já citada, madre Pierina conta assim o episódio:

“Escrevi ao fotógrafo Bruner para obter dele a permissão de usar a imagem do Santo Rosto tirada por ele e a obtive. Apresentei à Cúria de Milão o pedido de permissão, que me foi concedida em 9 de agosto de 1940. Encarreguei a empresa Johnson do trabalho, que foi demorado, pois Bruner queria verificar todas as provas. Poucos dias antes da entrega das medalhas, encontro na mesa do meu quarto um envelope, observo e vejo 11.200 liras. A conta dava exatamente aquela soma. As medalhas foram todas distribuídas gratuitamente e repetiu-se outras vezes a mesma Providência para outras encomendas; e a medalha se difundia, realizando insignes graças. [...] O inimigo tem raiva disso e perturbou e perturba de muitas formas. Mais de uma vez, durante a noite, jogou as medalhas no chão pelos corredores e pelas escadas, quebrou imagens, ameaçando e pisoteando”.

 

Nessa última parte da carta, a madre faz menção às duríssimas provações que enfrentou por obra do demônio. Provações que ela não deixa transparecer de modo algum, mas que anota diligentemente em seu diário, obedecendo a uma disposição precisa do abade Gregori. Suas dificuldades são acolhidas com alegria, pelo bem das almas
(“alegro-me nos sofrimentos que tenho suportado por vós e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo que é a Igreja”, Cl 1,24).

Uma extraordinária força de vontade? Mais simplesmente, e de modo mais realista, o testemunho de uma graça singular e de um igualmente singular abandono a Deus. Não é ela que combate e que vence: “Jesus venceu em mim” é a frase que aparece com maior frequência nas páginas do diário. E é o próprio Jesus, anota ainda em seu caderno em fevereiro de 1942, que lhe explica: “Fica tranquila, que eu mesmo conservei teu coração puro, sem nenhum mérito teu, para fazê-lo objeto de meus deleites”. Nesse abandono, acompanhado e confortado por “delícias do paraíso”, escreve: “Como sinto o meu nada e a minha miséria diante de tamanha bondade! É tão bom sermos pequeninos, incapazes de tudo...”

Um abraço que permitirá a madre Pierina resplandecer de fé, esperança e caridade mesmo nos anos da guerra, durante os quais tira o pão da própria boca para dar de comer aos famintos e desdobra-se para difundir as medalhas que representam a face de Jesus. A propósito disso, o abade Gregori, testemunhando no processo de beatificação, recorda como “algumas delas chegaram até pessoas condenadas à morte e perseguidos políticos, e nenhum desses condenados à morte teve a sentença executada”.
Tão logo termina a guerra, a madre decide viajar para o norte da Itália, para voltar a abraçar suas irmãs, que o conflito havia isolado de Roma. Parte em junho de 1945 e, depois de uma breve parada em Milão, vai para a casa de Centonara d’Artò, onde algumas noviças a esperam para tomar os votos. E é aqui que, esgotada pelo cansaço da viagem, adoece gravemente. Outras vezes, no passado, tinha-se curado prodigiosamente de graves doenças, como lembra o abade Gregori, algumas vezes depois de lhe solicitar que rezasse por sua saúde. É o que parece destinado a repetir-se também nessa ocasião: o abade, informado da situação, envia-lhe um telegrama, assim formulado: “Em virtude da santa obediência, cure-se em três dias”. Mas, infelizmente, ocorre um desvio e a mensagem chega tarde demais: às 11 horas do dia 27 de julho. Madre Pierina morrera à noite.

Em vez de recordar a beata no dia de sua morte, o dies natalis, como se diz canonicamente, a Igreja optou pelo dia de seu nascimento (e do batismo): 11 de setembro. No quarto que preserva as suas coisas, as irmãs puseram uma placa em que está escrito um pensamento da beata: “É tão reconfortante repetir: eu sou nada, Ele é tudo; eu não posso nada, Ele pode tudo”. É mais fácil o abandono, como o das crianças do andar de baixo, que, com suas brincadeiras, participam da alegria do Paraíso. Pois, “se não vos tornardes como crianças...”

 

Texto de Davide Malacaria, na Revista 30 Dias, jan.-fev 2011.