Espiritualidade Capitular: "Ad Jesum per Mariam"! - Sagrada Face de Jesus: expressão de sua Misericórdia!


Queridos irmãos Oblatos de Cristo Sacerdote!


     Estamos em pleno mês de março, onde temos tantos motivos para louvar e agradecer a Deus que sempre nos ama e, na sua infinita "misericórdia", nos chama e nos confia uma missão. Vocação é missão. Neste sentido, dentro  da nossa vocação específica, isto é, a oblação de nós mesmos no serviço aos bispos e sacerdotes, temos a grande oportunidade de praticarmos no dia a dia o amor e a "misericórdia" a exemplo do próprio Jesus Cristo Sacerdote.

     Toda a Sagrada Escritura e particularmente, os santos Evangelhos, poderiam ser resumidos sob o título da "misericórdia".* Todos nós necessitamos diariamente da "misericórdia" de Deus e necessitamos também de pessoas misericordiosas.

     Lançando um rápido olhar sobre a questão da "misericórdia", ela não é um problema apenas da teologia dos manuais neo-escolásticos, mas é também uma problema de certas correntes filosóficas, políticas e até mesmo religiosas. No dizer do filósofo moderno, Immanuel Kant, a ética não pode ser guiada pelas emoções, como a compaixão e a "misericórdia", mas pela consciência do dever moral.* Na visão de Friedrich Nietzsche, a "misericórdia" é algo totalmente desprezado, pois é vista como uma expressão de fraqueza, indigna do homem superior, forte e duro. No seu livro "Assim falou Zaratustra", ele faz um combate criando um verdadeiro contra-evangelho ao sermão da montanha.* Os graves e terríveis abusos nazistas, tiveram aí a sua inspiração criando a ideologia da raça superior e o desprezo dos mais fracos, dos portadores de deficiência e também do que eles classificavam de "raças" indignas da vida.*

     No campo da realidade política devemos ser gratos e reconhecer que ela se apoia no ideal da justiça. Todavia, o nosso sistema econômico está fundamentado na competição. Acaba prevalecendo a lei do mais forte, do mais inteligente, de quem tem mais sucesso, do mais esperto, e daquele que consegue impor-se e dominar. Basta pensar na nossa vergonhosa realidade brasileira. Portanto, não existe espaço para a "misericórdia", o amor, a ternura e a compaixão.

     Trazendo para mais perto de nós, graças a Deus estão surgindo, pouco a pouco, novos focos de luz e de esperança. No discurso de abertura do Concílio Vaticano II, o Papa São João XXIII assim disse: "Hoje a Igreja prefere usar o remédio da misericórdia mais do que o da severidade".* João Paulo II, futuro papa, que viveu os terrores da segunda guerra mundial e a ditadura nazista e comunista na Polônia, onde a "misericórdia" era algo totalmente ignorado, percebeu e descobriu o valor da "misericórdia" bíblica.  Assim foi o que fez durante o seu pontificado, quando promulgou a sua segunda encíclica: "Dives in Misericordia".* Seguindo nessa mesma direção e deixando uma resposta aos graves horrores do século passado, Bento XVI iluminou e destacou a importância  e a beleza da "misericórdia" na sua primeira encíclica: "Deus Caritas Est".*

     Quanto ao Papa Francisco, também chamado de "Papa da 'misericórdia'", tem o seu pontificado todo centrado e fundamentado na "Divina Misericórdia". Ele  traz consigo uma experiência profunda de tristeza, de dor, de solidão, de abandono, de desprezo, do descartamento em que vivem tantas pessoas, homens e mulheres, com as quais ele conviveu nas ruas, nos quarteirões, nos guetos e nas muitas favelas de Buenos Aires. Com tristeza, dentro de um mundo moderno e rico, com tanta tecnologia ao seu dispor, fala-se ainda de pelo menos doze milhões de escravos em nível mundial, seres humanos, nossos semelhantes,  que são constrangidos ao trabalho duro e forçado.

     Dentro do tema da "misericórdia", existe algo muito importante que merece nossa atenção: em quase todos as religiões da humanidade encontra-se a chamada regra de ouro: "Tudo, portanto, quanto quereis que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles".* É uma verdadeira herança da humanidade que nos convida a trabalhar a nossa empatia e simpatia como um modo de ultrapassar o nosso próprio eu, colocar-se na situação do outro, sentir na própria pele a dor ou a alegria do outro e agir como gostaria que o outro agisse comigo em uma situação semelhante.

     Tomando o Antigo Testamento, nos seus primeiros capítulos, não encontramos a palavra "misericórdia". Todavia, percebe-se logo que tudo o que Deus fez foi bom e que Ele cuida de tudo. Infelizmente, com a entrada do pecado, entrou também o caos no mundo. Mesmo assim, desde o início, Deus sempre resistiu ao mal, ao caos, mostrando por diversas formas que a sua meta é o bem, a vida e jamais o mal e a morte. Com o dilúvio Deus  garantiu de novo a ordem e deu ao homem um espação e uma nova possibilidade de sobrevivência (Gn 8-9). O mesmo se deu também após a grande dispersão e a grande confusão com a famosa Torre de Babel. Deus, então, chama Abraão e inicia com ele uma nova história, um novo caminho e uma nova aliança, cobrindo Abraão e toda a humanidade de bênçãos (Gn 12,3; 18,18; 22,18).

     Depois, um pouco mais adiante, Deus chama Moisés e com ele salva o povo de Israel do Egito. Deus deixa claro a Moisés que Ele "escuta, vê e sente" a dor de seus filhos escravos no Egito. Quando Ele diz a Moisés: "Eu sou aquele que sou" (Ex 3,14), não revela apenas o conceito metafísico de um Deus como ser absoluto. O significado original de "IHWH" é muito mais amplo e profundo. Na verdade,"IHWH"significa: "Eu sou e estarei presente, eu sou e estarei convosco; eu sou o vosso Deus e vós sois o meu povo" (Ex 6,7). Revelando o seu Nome, Deus mostra a sua comoção, sua sensação de dor, sua compaixão e disponibilidade para ajudar, salvar e libertar.
     A palavra "misericórdia" não aparece diretamente mas está subtendida e evidenciada pela ação de Deus em favor do seu povo. Continuando no seu diálogo com Moisés, finalmente lá está a palavra "misericórdia". Assim lemos: "O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel" (Ex 34,6). A "misericórdia" constitui o seu ser absoluto. O ser de Deus se manifesta na sua "misericórdia".

     O ponto culminante, o coração do amor de Deus e da sua "misericórdia", se encontra no livro do profeta Oséias. Ele viveu e atuou numa situação de profundo drama. Assim sendo, a sua mensagem oferece um caráter todo dramático. O povo se descambou por completo e se tornou como uma "prostituta desonrada". Inicialmente Deus rompeu com o seu povo e desistiu de correr-lhe atrás como sempre tinha feito. Passado um período, mesmo diante da prostituição do seu povo, Deus decide "casar-se" com a prostituta (a humanidade), resolve dar-lhe uma chance com a esperança de que ela se converta e volte à vida. Diz assim o texto: "Eu sou Deus, não um ser humano, sou o Santo no meio de ti, não venho com terror" (Os 11,9). Na verdade, prevalece aqui o amor e a "misericórdia" sobre a justiça. E a prostituta então se converte voltando a viver.

     Tomando o Novo Testamento, sem me delongar, basta lembrar as atitudes, os gestos e as lindas parábolas contadas por Jesus, onde revelam de modo brilhante a verdadeira essência de Deus como, aliás, muito bem expressa São João em sua primeira carta: "Deus é amor" (1Jo 4,8).

     No capítulo 15 de Lucas temos desenhado de modo límpido e comovente o coração de Deus, o coração de sua mensagem e o coração de sua obra redentora. Nas três parábolas: o Bom Pastor, a Moeda Perdida e o Filho Pródigo, que compõem esse capítulo, se revela a essência de Deus, o quanto Ele se interessa por cada um de nós, o quanto somos importantes a seus olhos e o mais comovente: Deus se alegra, exulta e faz festa por um só pecador que se converte e volta a viver. Numa profunda ligação com esse texto, temos também a belíssima parábola do Bom Samaritano que tudo deixa para socorrer um forasteiro e estranho que se encontrava necessitado e quase morto ao longo de uma estrada (Lc 10, 25-37). Ainda, muito rica e importante, é também a carta de São Paulo aos Efésios, onde o apóstolo resume e, com uma genial maestria, assim afirma: "Deus, rico em misericórdia" (Ef 2,4).

     Por fim, Jesus sacrificou a sua vida "para resgatar a muitos", ou seja, se doou totalmente por cada um de nós e por todos nós (Mc 10,45; 1Tm 2,4). Neste sentido, com tranquilidade podemos dizer: o crucifixo é a mais bela  e concreta imagem da "misericórdia" de Deus.
     Numa tentativa de trazer e fazer descobrir às pessoas de hoje o quanto necessitamos da "misericórdia"  e o quanto precisamos ser também misericordiosos, nem sempre tal tarefa se revela tão fácil. Conforme já afirmou o Concílio Vaticano II, o ateísmo nas suas mais variadas formas, além da indiferença religiosa bastante presente na nossa atual sociedade, constitui um dos problemas mais sérios exatamente porque, enquanto cristãos que somos, temos alguma culpa em relação a ele.* Muitas vezes com o nosso comportamento e as nossas atitudes fechadas e moralistas, obscurecemos a imagem de Deus. Quantas vezes dizemos que Deus pune, castiga, é vingativo, paga com a mesma moeda e, se não nos cuidarmos, se não estivermos atentos, o inferno nos aguarda. Já ouvi isso centenas de vezes. São atitudes que acabam subestimando a mensagem e a imagem de um Deus misericordioso, que na sua "misericórdia" não quer a morte do pecador, mas a vida. O próprio Jesus afirma: "Não vim para condenar o mundo e sim para salvá-lo" (Jo 3,17). Tem toda razão o Papa Francisco quando diz: "Deus jamais se cansa de nos perdoar. Nós é que nos cansamos de pedir perdão"*

     Nós, Oblatos de Cristo Sacerdote, neste ano capitular e dentro deste grande retiro da Igreja que é a Quaresma, certamente somos impelidos a lançar um olhar de amor e de "misericórdia" para conosco mesmos, pois, embora pequenos e limitados como somos, Deus conta conosco neste nobre serviço prestado à Ele mesmo na pessoa dos nossos bispos e dos sacerdotes diocesanos. Antes de mais nada, devemos agradecer imensamente a Deus que se dignou nos chamar e nos presentear com a sua Face sofredora para que contemplando-a e amando-a, possamos mergulhar no seu infinito mistério de amor e de "misericórdia", enchendo-nos de sua luz e sabedoria. Na vida quotidiana e nos revezes ao longo da caminhada, temos como nossa missão, sermos testemunhas da Face gloriosa do ressuscitado para todos, especialmente os mais necessitados  e os mais pobres que a própria sociedade acaba gerando e também todos aqueles que ainda não perceberam que Deus os ama, veio para eles, vive para eles e deseja que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10).

     Que a nossa espiritualidade e a nossa mística, dentro da ótica do amor e da "misericórdia", não sejam aquela dos olhos fechados, mas dos olhos abertos, olhos que nos levam a ter corações abertos, mãos abertas, ouvidos atentos, pernas velozes e pés disponíveis para ir ao encontro daqueles que estão no mundo da miséria e que necessitam de um olhar de amor, de compaixão, de ternura e de "misericórdia".

Pe. Sebastião César Moreira, OCS

Referencial Bibliográfico
1. KASPER W., O desafio da misericórdia. Coleção - Misericórdia, vol. IV, Ed. CNBB, 2016.
2. KANT I., Fundação da metafísica dos costumes, Bari, 2017.
3. NIETZSCHE F., Assim falou Zaratustra, Milão, 1996.
4. SÃO JOÃO XXIII, Gaudet Mater Ecclesia, 16.
5. GS, 19-21.
6. PAPA FRANCISCO, Oração do Angelus, 17/03/13.
7. SÃO JOÃO PAULO II, Dives in Misericordia, 1980.
8. PAPA BENTO XVI, Deus Caritas Est, 2005.
9. KASPER W., Misericórdia. Conceito fundamental do Evangelho. Chave da vida cristã, Brescia, 2013.