Queridos Irmãos Oblatos de Cristo Sacerdote!

Espiritualmente capitular: Ad Jesum per Mariam!

Estamos no mês dedicado a Nossa senhora, pois ela é, segundo a afirmação de Lutero, "a excelsa, a privilegiada e a primeira cristã". De fato, Maria é o maior  modelo de discípula de Jesus. Santo Agostinho, em um dos seus comentários, afirma que a grandeza de Maria não está no fato de ser "Mãe" de Deus, mas no fato de antes ter sido "Discípula" do Senhor.
   

Em nossa preparação capitular, gostaria de maneira sintética, reproduzir aqui uma das muitas reflexões de Afonso Murad, um dos grandes mariólogos presentes no Brasil. Farei alguns pequenos acréscimos para melhor focar nossa preparação capitular. Para nós Oblatos, Maria tem um papel particular pelo fato de que a nossa espiritualidade  está centrada em Cristo e em Maria como o modelo e o caminho a ser feito para que possamos nos assemelhar sempre mais a Jesus Cristo Sacerdote.
    

Lucas apresenta para todos os homens de boa vontade o mais lindo e diversificado perfil de Maria na Bíblia. Maria é aquela que  "escuta, obedece, segue, confia e aprende" com Jesus ao longo do caminho. Exatamente aqui está a grande e genial novidade de Lucas: apresenta-nos Maria como a imagem viva do discípulo de Jesus. Lucas destaca Maria, não enquanto "mãe", mas enquanto "discípula". O "faça-se em mim segundo a tua Palavra" ( Lc 1,38), se deu em Nazaré, na fuga para o Egito, em Caná da Galiléia, em companhia dos apóstolos e na comunidade nascente.

Seguindo nesse horizonte de pensamento, Lucas apresenta-nos quatro grandes características de Maria:

1. Seguidora de Jesus - No seguimento de Jesus, Maria oferece três qualidades básicas para todo e qualquer discípulo que deseja viver fielmente: "acolhe a Palavra de Deus com fé (Anunciação); conserva a Palavra de Deus no coração e a medita, confrontando-a com os fatos e pela fé frutifica essa Palavra viva ("feliz porque acreditou"); Mãe do Messias ("bendito é o fruto do teu ventre").

2. Peregrina na fé - Significa que Maria não sabia tudo, não era dona da verdade ou uma privilegiada especial. Foi trilhando um caminho e, pouco a pouco, foi fazendo descobertas: a perda e o encontro do Filho Jesus no Templo, a nova interpretação de Jesus quanto à lei e o dia de sábado, etc. Eis a espada que foi lentamente transpassando a alma e o coração de Maria.

3. Sinal da opção de Deus pelos pobres - Jesus e Maria eram pessoa simples e pobres. Não eram ricos e muito menos eram pessoas importantes. Jesus nasceu na mais total e pura pobreza. Quando chegou o momento de apresentá-lo ao Templo, ofereceram pássaros em vez de um cordeiro. Nessa perspectiva o "Magnificat" mostra claramente que Deus se volta para os pobres porque são os que mais necessitam e que acabam enfrentando no dia a dia da existência humana, todos os possíveis e inimagináveis tipos de carência.

4. Maria, mulher contemplada pelo Espírito Santo - Maria concebeu por obra do Espírito Santo. Ela foi contemplada pelo Espírito Santo no nascimento de Jesus e no nascimento da comunidade cristã. Tudo isso graças ao seu "sim" que foi se renovando no decorrer de sua vida. Maria simboliza o ser humano em construção, aberto para Deus, aberto para a vida, tocado pelo Espírito Santo, cultivando dia após dia um coração solidário. Maria é aquela que nos leva a aceitar a "Boa Nova" de Jesus: "Deus é dos pobres".

Exatamente no próximo dia 16 de maio, dia em que realizaremos o nosso primeiro encontro preparatório para o nosso VII Capítulo Geral, se completarão 40 anos da restauração da imagem de Nossa Senhora Aparecida, desde aquele triste fato quando foi quebrada em muitos pedaços. Também neste ano dedicado ao "Laicato", que nada mais é do que uma revisão, uma tomada de consciência e uma restauração do papel do leigo na Igreja e particularmente no mundo, a solene novena em honra a Nossa Senhora Aparecida no Santuário Nacional, terá como enfoque a importância da restauração que deve também acontecer em nossas vidas, em nossas comunidades e em nossa sociedade. Todos temos sempre alguma coisa que precisa ser revista, que merece ser submetida a algum tipo de revisão. Com o passar do tempo, muitas coisas podem tomar o caminho da rotina, do cansaço, do desânimo e até mesmo do abandono. Assim sendo, a finalidade acaba sendo deixada de lado e até mesmo extinta.

Certamente, como Oblatos de Cristo Sacerdote, podemos nos incluir neste contexto, visto que temos um carisma profundamente rico e nobre que, pela sua própria natureza e seu próprio objetivo, acaba sendo exigente para quem busca vivê-lo em profundidade. Olhando para a vida de Maria e para sua missão de Mãe de Jesus, muitas vezes ela também foi convidada a restaurar o seu papel a cada dia. Maria foi escolhida e preservada do pecado original, mas nunca deixou de ser humana e criatura de Deus.  Como bem nos lembra São Lucas, "... ela guardava todas as coisas em seu coração e as meditava" (Lc 2, 16-21). Em outras palavras: era alguém que sempre estava procurando fazer uma revisão de vida, uma restauração dos fatos acontecidos e buscando tomar consciência dos fatos que a envolvia. Ela foi uma pessoa totalmente normal e profundamente consciente de seus atos e responsabilidades. Jamais ela foi manipulada ou condicionada por qualquer tipo de força ou ação exterior.  Que a nossa preparação capitular possa ter também a mesma busca, a mesma dimensão e a mesma consciência daquilo que procurou fazer Maria, todas as vezes que meditava sobre os fatos e guardava tudo em seu coração.

Dentro desta semana de oração pela unidade dos cristãos e preparando o coração para receber o Espírito Santo, que seja o mesmo Espírito Santo a nos guiar e nos inspirar novos rumos e novas metas na vivência cada vez mais profunda e consciente do nosso carisma dentro da Igreja como cireneus dos sacerdotes e bispos, contemplando neles a imagem viva do Cristo Sacerdote.

Referência Bibliográfica
1. Cf. MURAD Afonso, Maria, modelo de fé e seguimento do Cristo, in https.//slideshare.net
2. Outras citações reportadas no texto, são tiradas da memória, frutos dos estudos e leituras


Pe Sebastião César Moreira, OCS