Olimpíadas e vida.

Ontem após assistir um pouco do encerramento dos jogos olímpicos que teve início no dia 27 de julho de 2012, na cidade de Londres, fui procurar qual seria o lema destes jogos. Para minha surpresa o lema trazia a intensidade de se doar nas competições, "Live is one" ("Viva como se fosse o único").

Durante as apresentações e competições, principalmente aquelas que se tratavam de nossos atletas brasileiros, ficava um pouco preocupado com alguns comentários e reações que percebia durante o dia ou naquela semana, quando nosso país perdia alguma competição. “Toda comunidade dos israelitas pôs-se a murmurar contar Moisés e Aarão, no deserto, dizendo-lhes: ‘Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor no Egito, quando nos sentávamos junto ás panelas de carne e comíamos pão com fartura! (Ex 16, 2-3). Quero frisar que gosto muito de esportes, porém, me “assusto” um pouco quando começamos a criticar, não mais no sentido positivo, apontando onde o atleta ou a equipe poderia ter sido melhor, ou mesmo a falta de investimento em determinado esporte e superinvestimentos em outros mais lucrativos, não discutimos sobre a pratica de esportes em nossas comunidades ou escolas, como meio de crescimento e agregador de valores. Mas partimos muitas vezes para ignorância, chegamos da dizer palavras baixíssimas a respeito de alguém que nos decepciona (competidor). Apontamos tudo o que ele poderia ter feito, a vergonha que ele nos proporcionou com aquela derrota, mas dificilmente lembramos do esforço e competência que teve o outro competidor, onde também deveríamos nos alegrar pela sua conquista e procurar sem nenhum receito a aprender com o outro que conquistou a vitória. Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39).

Em muitas de nossas falas de cristãos, fazemos referência a Cristo que morreu para salvação de todos, que deu sua vida por amor de cada pessoa humana, independente de sua crença, raça ou religião. Mas na hora de profetizarmos tudo isso na pratica de nossos comentários, acabamos nos tornando grandes contraditórios e possíveis incentivadores do sistema agressivo e de morte. No ano de 1994 o jogador colombiano Andrés Escobar foi assassinado brutalmente com 12 tiros à queima-roupa poucos dias após a eliminação da Colômbia na Copa do Mundo disputada nos Estados Unidos. O jogador marcou um gol contra onde sua equipe teve que deixar a competição. Não conseguimos enxergar que a seleção colombiana como qualquer outra é um time, quando se perde, se perde também pela atuação do coletivo na competição e nossa fraqueza é descarregar ou jogar a culpa de nossas incompreensões numa única pessoa, pensando que assim estaremos eliminando um “mal”, onde na verdade estamos nós sendo protagonistas dos males existentes. “Tudo, portanto, quando desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles” (Mt 7, 12, Lc 6, 31).

Muitos de nossos jovens são treinados para ganhar, mesmo que isso signifique passar pessoas honestas para trás, trapacear, se doparem e até mesmo tirar a vida de outras pessoas para que a sua seja vitoriosa. Nós deveríamos ensinar e principalmente aprender a perder, a crescer com nossas perdas e a partir delas sermos pessoas melhores, melhores competidores. Não estamos negando a busca da vitória, mas que esta seja merecedora, justa e que nos traga paz.

Outrora nos seminários, o esporte, de modo especial o futebol, era uma forma de perceber o comportamento dos seminaristas. É claro que este momento não era e nem poderia ser o único para poder dizer como uma pessoa era, mas ajudava a iluminar outras situações. Durante o jogo os reitores e formadores podiam perceber quem tocava a bola, aqueles que tinham criatividade, que eram agressivos até violentos na hora de roubar uma boa, os fominhas, os que se doavam pela vitória, como também aqueles que não estavam nem ai se o time ganhasse ou perdesse (eram indiferentes). O esporte como outros momentos de laser, nos possibilita conhecermos as pessoas como elas são naturalmente, sem o peso das máscaras sociais.
Participaram das Olimpíadas 2012, cerca de 10.500 atletas de 191 países e 13 territórios, oxalá que a próxima Olímpia no Brasil em 2016, possamos apresentar valores significantes, relações humanas, que transforme nossas relações de morte em relações de vida: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

Pe. Durvano Ap. Dourado Porto, OCS.