Ser padre Oblato

Neste mês de agosto de 2020, a Igreja no Brasil nos convida a meditar, agradecer e louvar a Deus pelas diversas vocações no coração da Igreja e da sociedade. Somos inspirados pelo tema: “Amados e chamados por Deus” (Chv, 112) e iluminados pelo texto bíblico de Isaías: “És precioso a meus olhos... Eu te amo.” (Is 43,4). Iremos cada semana refletir sobre uma vocação.

Nesta primeira semana, inspirados pelo exemplo de santidade do Patrono dos Párocos, São João Maria Vianney, cuja memória litúrgica celebraremos no dia 04, queremos refletir sobre a vocação dos Ministros Ordenados: diáconos, padres e bispos. Que a humildade, a devoção a Maria e o amor aos Sacramentos, sobretudo à Eucaristia e à Confissão  motivem nossos vocacionados a responderem também seu sim ao chamado de Deus.

Esta reflexão terá um acento bem peculiar, na dimensão da vida dos Oblatos de Cristo Sacerdote, onde, seguindo o Único e Eterno Sacerdote, participamos do seu Sacerdócio  Ministerial na doação de nossas vidas por meio da pobreza,  castidade e obediência. E queremos, a exemplo de Simão Cireneu, ajudar o Senhor a cumprir sua missão de salvação da humanidade.


Para melhor entender o “ser padre Oblato” quero comparar este dom a uma vela acesa que ilumina a escuridão de nossos tempos. Embora tenhamos tantas “lâmpadas” acesas nada substitui o exemplo de uma simples vela, tão rica em sinais e ensinamentos.

Recebemos no batismo uma vela, acesa no Círio Pascal, que representa o próprio Cristo, luz do Mundo (cf. Jo 8,12). Ela é apagada após o rito, porém em nós permanece para sempre a chama da fé e da filiação divina.

Neste sentido, quando um jovem recebe um Ministério é como uma vela renovada, acendida pelo fogo do Espírito e impulsionado pela fagulha do amor de Deus. É cera nova, brilhante, atraente, lisa e perfumada. Muitas vezes apresentada com louvores, cheia de decorações e brilhos. E não está errado, pois a missão sacerdotal é digna de alegria e louvor. A Ordenação não é mérito humano, mas puro dom e graça de Deus.

Com o passar dos anos, a vela nova vai ardendo de luz e brilho, iluminando com graciosidade, por onde passa, paróquias e cidades, casas e comunidades, deixando rastros de vida e do amor de Deus na história das pessoas e dos lugares. Assim como a vela aquece, conforta, encoraja e mostra direção, também o jovem sacerdote Oblato aquece o coração e a alma dos fiéis com suas palavras, dinamismo e serviço. Sua presença conforta e encoraja igualmente aqueles que se perderam nas trevas do pecado, reconciliando-os com Deus. E para as crianças e jovens, mostra a direção de uma vida cristã verdadeira.

Porém ser padre Oblato não é fácil. O Mestre disse: “No mundo tereis tribulações...” (Jo 16,33) E a Sagrada Face de Jesus muito bem nos revela isto. A vela também passa por momentos de fragilidade em que a cera é fraca e a chama diminui, quase se apaga ou os ventos do mundo, fortes e frios levam-na a quase extinguir-se. Contudo, o fogo da vocação sacerdotal, quando preservado pela oração, piedade e vida de comunidade não se apaga. Pode até diminuir a intensidade, na doença, no isolamento e na recuperação. Mas a verdadeira luz vem de Jesus, e quem o segue tem a luz da vida, e a chama recupera seu vigor quanto mais perto d’Ele estiver.

Por fim, com os muitos anos a vela perde sua beleza e encanto, torna-se enrugada pela cera derretida, não tem mais beleza aos olhos humanos nem é escolhida para grandes festas e eventos. No entanto continua ela a brilhar e a se consumir silenciosa, oculta e perseverantemente. Não se revolta nem se angustia, mas permanece fiel. Nossos padres oblatos idosos e doentes são essas velas silenciosas e ocultas.  Sua chama não se apagou, sua dignidade não se retirou. Sua chama é uma oferta silenciosa que sobe ao céu e continua iluminando o mundo, a Congregação e as pessoas que deles se aproximam.

Quando o padre Oblato doa toda a sua existência para iluminar e santificar, chega a um momento de sua vida em que a vela não existe mais mas somente a chama do amor de Deus. E este é o sinal mais belo de perseverança final de um Ministro de Deus. Quando, enfim, cessa a chama, esta sobe aos céus silenciosa e perenemente, e a cera destruída é lançada à terra e descansa. Porém, fica na vida e na memória daqueles que foram tocados pela vela, uma nova chama que continua a iluminar o mundo.

Ser padre Oblato é ser vela viva. Ser conduzido pelo Espírito de Deus onde a Congregação necessitar e enviar. E ter a Senhora das Vitórias como companheira e guia que guarda para que a chama não se esmoreça. Somos, enfim, amados e chamados pelo Cristo Sacerdote para amarmos uns aos outros, como Ele nos amou e chamarmos outros para também acenderem suas vidas na luz desta vocação tão bela e tão digna.

Por isso, pedimos: “Senhor, enviai-nos santas e perseverantes vocações para nossa Família Religiosa!”


Pe. Rafael Ângelo de Carvalho, OCS