Após o Concílio Vaticano II, a teologia da Missão definiu-se em torno de três elementos fundamentais: a sua fonte trinitária, a sua identificação com a promoção e os valores do Reino e a sua peregrinação pelos caminhos dos homens, ou seja, a sua encarnação na história.


Fundamentos da espiritualidade missionária


O elemento contemplativo da Missão
Era frequente, antes do Vaticano II, fundamentar a Missão no mandato de Cristo de anunciar o Evangelho a todos os povos. Ora, o Decreto Conciliar Ad Gentes fez retornar a Missão à sua verdadeira fonte: a Trindade. A Igreja é, por natureza, missionária, pois tem a sua origem na Missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai (cf. AG 2). O Concílio situou a Missão na sua verdadeira fonte: ela nasce em Deus, é dom de Deus. A nossa colaboração missionária consiste apenas em deixarmo-nos envolver por esse dom.
Antes de ser uma atividade, a Missão é contemplação e disposição para mergulhar no projeto e na bondade de Deus. O missionário não é o protagonista da Missão, somente Deus o é. A iniciativa de Deus antecipa, acompanha e leva a bom termo a Missão. Antes de se entregar aos homens que quer evangelizar, o missionário se entrega a Deus, de quem está enamorado. São João desenvolveu esta teologia da Trindade como fonte da Missão. No prólogo do seu evangelho, ele declara a origem, a finalidade e as dimensões cósmicas da Missão do Verbo.
Toda a realidade criada é fruto dessa Palavra encarnada. A Palavra penetra toda a história humana e todas as realidades, oferecendo-lhes a abundância e a plenitude do dom de Deus. Ela abraça a história humana: “fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Ao longo deste evangelho, a Missão do Filho comunica o profundo mistério do Pai. Essa filiação vai fecundar toda a história humana. Se, por um lado, a Missão está situada no coração da Trindade de Deus, por outro, tem o seu termo no coração do homem.
Esta leitura contemplativa da Missão faz com que ela seja um mistério, uma amizade que se descobre à medida que nos abrirmos a ela, e lhe entregarmos o coração. De fato, em João, os discípulos, em vez de serem chamados, como nos sinóticos, são atraídos, são seduzidos por Jesus.
Aprofundando esta amizade, eles entram na Missão: “Mestre, onde moras?”. “Vinde e vede!”.
É preciso entrar na casa do Mestre. No evangelho de João, a Missão é diálogo, encontro, partilha. Ela não se impõe. Só a amizade pode motivá-la. O diálogo é o espaço privilegiado para Jesus comunicar o dom do Pai. No episódio da Samaritana (Jo 4,1-42), Jesus, pelo diálogo, acompanha as pessoas na sua própria descoberta e pede licença para entrar na história de cada um.


Promoção dos valores do Reino
A Missão de Cristo foi proclamar e inaugurar o Reino de Deus, que envolve os homens e a Criação. A família humana tem origem divina; todos foram criados à imagem e semelhança de Deus e refletem sua imagem, cristãos ou não. Ninguém é excluído do plano da salvação, que é único e universal. A Missão da Igreja insere-se nesse projeto divino, que ultrapassa as fronteiras da Igreja e atinge as dimensões do Reino. Deus chegou a todos os povos, antes de o missionário ter chegado lá, “de um modo que só Ele conhece”.
A tarefa da Igreja não é levar Deus, mas descobrir e fazer crescer a presença e a ação de Deus. Este Espírito de Deus continua atuando na história, nas culturas e nas religiões. Ele fecunda as sementes do Verbo, presentes na Criação inteira, nos ritos e nas culturas, nas aspirações e nas
esperanças da humanidade, e as faz amadurecer em Cristo (cf. Dei Verbum, 8). É papel do missionário encontrar os valores que comprovam a passagem do Espírito pelo povo, antes dele ter chegado lá. Essas mediações de Deus, que precedem o missionário, são os valores que articulam o seu viver, como a paz, a justiça, a solidariedade, a partilha, os valores do Reino.
O diálogo inter-religioso e intercultural aparece como uma via para conhecer outros espaços do Espírito, outros modos de Ele comunicar o amor do Pai, onde a Igreja ainda não chegou, nem Cristo foi anunciado ou compreendido... O missionário deve identificar essas marcas do Espírito e fortificá-las. Deus já está em diálogo com o povo. O serviço missionário não é interpor-se entre Deus e o povo, mas facilitar e ajudar nesse diálogo.
É preciso respeitar a liberdade de Deus, já presente na liberdade das pessoas que procuram responder à sua maneira. Mais que destruir muros, o papel do missionário será aprender a ver por cima deles, como Deus vê.
Depois que a Missão foi reconhecida, sobretudo pela eficácia das suas obras: promoção da saúde, do ensino, agrícola, literária, artística, etc., emerge hoje uma nova imagem da Missão. A Missão como testemunho das Bem-Aventuranças e dos valores do Reino. O Evangelho é muito mais uma maneira de ser e de se situar frente aos grandes valores, do que capacidade para atuar. Abrir-se ao Espírito Santo é, hoje, a sua essência.
Pelos caminhos da humanidade
João Paulo II tem repetido que “o homem é o caminho que a Igreja deve percorrer para cumprir a sua Missão”. Trata-se do homem e da mulher concretos, marcados pelo tempo em que vivem, pela cultura que os identifica e os distingue no espaço e no tempo, integrados numa rede de solidariedades concretas, tais como a terra, a língua, a família, a etnia, a cultura. É europeu, asiático, africano, latino-americano... Tem rosto, tem nome e tem voz. A Missão deve atingir este homem e esta mulher nas suas raízes culturais, na linguagem que eles falam, nos seus problemas, nos caminhos por onde passa a sua vida.
A sua conversão ao evangelho não vai mudar a sua identidade, nem fazer deles pessoas desenraizadas ou expatriadas. Antes de serem evangelizados, eles tinham os sinais do amor de Deus, que os chamou à vida e os criou à sua imagem e semelhança, até mesmo desconhecendo-O. A Criação é o primeiro gesto missionário de Deus. Nós não chegamos à vida como náufragos à praia, para ali encalhar. A Criação é o berço que Deus preparou para cada um dos seus filhos e filhas.
Com a encarnação de Jesus, que se faz homem e assume a condição humana, Ele completa, em cada um, essa filiação com que nos gerou, quando nos chamou à vida. O mistério da encarnação e da redenção não atinge só os batizados: toda a humanidade é tocada por esta graça. Nascida ali, a Igreja será filha do povo no qual entra; terá a sua cor e o seu modo de se situar no mundo. Será a história daquele povo, da sua cultura, do seu viver que Cristo vai assumir, como o fez na Palestina. Por isso, o modelo desta Missão é a encarnação de Cristo.
Não se trata, portanto, de aproveitar só alguns valores dispersos, e adaptá-los ao evangelho, mas de fazer transparecer o Cristo em todos os seus valores culturais. O Vaticano II voltou-se decididamente para o homem contemporâneo, e as situações concretas que este homem vive indicarão os passos que a Missão deve percorrer. É uma Missão contextualizada, interpelada por múltiplas fidelidades, com muitos rostos, tantos quantos são os caminhos percorridos pelo homem de hoje.
* Daniel Lagni - ex-diretor das POM